Teve Mesmo que Ser

Segunda-feira, Setembro 04, 2006

O Rescaldo Estival

Fui de férias.
Vim de férias.
Assim mesmo, com esta rapidez.
Realmente o slogan da agência era: “Férias Flash, antes de serem já foram!” (Deu para perceber, obrigado…)

Momentos marcantes deste curto período de alienação ao mundo.

Consegui marcar férias para a única semana de Agosto que foi presenteada com tempestades tropicais, temperaturas abaixo dos 20º C e ventos em excesso de velocidade. Lado bom da coisa: o protector solar dá para o ano e o bikini novo continua como tal.

Consegui dar uma nova dimensão à expressão “cúmulo do azar” ao encontrar o meu chefe, em 23514 quilómetros quadrados de praia, logo no 1º dia. O que me valeu foi o déspota capitalista estar a dormir e eu conseguir passar de fininho prescindindo dos então-por-aqui-que-bom-vê-lo-já-não-basta-o-ano-todo-meu-grandessissimo-...?!?

Nessa mesma praia, de muitos quilómetros quadrados, fui reconhecida pela voz, (sim, pela voz…) por um ex-colega de escola do meu pai. Nem sei o que diga disto. Tenho a voz muito grossa? Tenho muito sotaque? O meu pai é mais conhecido que o Zé dos Plásticos? Ou, PORRA QUE VIVEMOS NUM PAÍS MESMO MUITO PEQUENO?!?

A máquina fotográfica comprada de propósito para registar os bons momentos das férias decidiu rescindir contrato sem pré-aviso e entrou em modo não-funciono-nem-que-tu-te-…-toda. Mas pelo menos pararam as câimbras no dedo indicador de tanto dar ao gatilho e assimcomássim já tinha fotos que chegassem.

Ir a Espanha e não sair de Portugal. (E encontrar amigos, pois 'tá claro, podia lá deixar de ser?!?)


Férias são daquelas coisas que só por o serem já são boas. As minhas foram e já podiam era vir outra vez. Desta vez a sério, vá… Com sol e tudo que eu não me importo.

Quinta-feira, Agosto 03, 2006

Em boca fechada...

LC: (com a boca atafulhada de impensáveis instrumentos de tortura, vulgo, material de dentista): Óie uá, é nómau io tar ão ente e a azê umo?*

*Tradução: Olhe lá, é normal isto estar tão quente e fazer fumo?

Sra Dra Dentista: Sim, sim, não se preocupe. É perfeitamente normal já que eu a estou a espetar com ferros em brasa.

LC: (Ferros em brasa?!? RED ALERT! ESCAPE! RED ALERT! ESCAPE!)

Pois, eu sou é parva por ter perguntado.
A ignorância é uma benção e eu devia era ter aproveitado a boca estar tão aberta e tão cheiinha de coisas impróprias para a manter calada.
Assim só consegui foi transformar os seguintes 20 minutos num verdadeiro épico de terror protagonizado por um Jason ou um Freddy, em que não faltaram dentes sangrentos, dentistas assassinos e assistentes carnívoras.

Depois de muita luta mental lá acabei por sair sem grandes mazelas (tirando as perturbações psiquicas já costumeiras e não necessariamente imputaveis à dentista/torturadora).
A consequente e inevitável facada na carteira é que não foi filme. Foi mesmo terror .

NOTA
Srs Dentistas: Ferros em brasa? Então?… Eu sei que os senhores são muitas vezes mal-amados e incompreendidos mas assim também não vão lá, garanto-vos.

Quarta-feira, Agosto 02, 2006

(Des)Comunicação

LC: Bom dia sr. Pintor. Então quando é que pode lá passar em casa para me dar o orçamento?

Sr. Pintor: Bom dia menina. Olhe, talvez sabado, pode ser? (Sábado… hummm, isto já não está a querer parecer nada bem, mas adiante…)

LC: Pode, então não pode porquê? A que horas é que lhe dá jeito? (Deve-me ter passado uma coisa má pela vista para lhe estar a dar a ele a possibilidade de escolher as horas., deve, deve…)

Sr. Pintor: Olhe, por volta das nove tá bom para si?

LC: (a tentar dominar a apoplexia eminente e um super engasganço) Às nove?!? (Silêncio entrecortado por copiosos soluços lacrimais por alma da manhã na cama perdida. É SÁBADO, homem! SÁBADO plamordedeus!!) Argh… pois… arghh… pode ser…

Sr. Pintor: Mas ó menina… é cedo? (Não, é cá agora cedo! É tão cedo, tão cedo, que ainda deve ser sexta!) Veja lá, não quero que se levante só por minha causa. Se quiser pode ser mais tarde. (Ah abençoada luz que te iluminou!)

LC: Eh, Eh… por acaso não me costumo levantar tão cedo aos sábados, não…

Sr. Pintor: Pronto, às 9.30h então! (É pá… obrigadinha! MUI-TO O-BRI-GA-DI-NHA pela meia-horinha! Que mãos largas sois, caro pintor, que alma caridosa, que ser benevolente. Porra! Deixa mas é de enfiar a cabeça no balde da tinta!)

LC: Está bem… (E xiu…)

Dizer o quê...? É em falhas de comunicação como esta que reside a base do desentendimento entre a humanidade e volta-não-volta a malta se espeta toda à batatada. Pelo menos a mim apeteceu-me…


Mas depois, olhem..., até nem foi mau… Descobrir o admirável mundo novo do sábado de manhã é algo que recomendo.

Mas só de vez em quando.
Tipo programa da National Geographic.

Segunda-feira, Julho 24, 2006

À pesca de otários

Todos conhecem certamente a história do doido (ou aparente…) que andava pelo hospital de cana de pesca na mão e que cada vez que lhe perguntavam se já tinha conseguido pescar alguma coisa, ele respondia que sim, mais um otário. (Caso não conheçam, basta ligarem a sic gold e esperarem 5 minutos que eles hão-de aparecer)
Pois bem, um dia destes e por uns instantes, encarnei neste personagem. Ok, isto contado não se acredita e visto também não mas passo a (tentar) explicar. Aviso os mais incautos que isto vai ser doloroso, longo e sem jeito nenhum. Desistam já aqui.

Adiante…

O cenário era completo: a cana, o hospital, os otários e a doida. O contexto? Um pai mimado hospitalizado, uma filha otária e uma prenda fora d’horas.

Ora o senhor meu pai foi recentemente possuido por uma alma penada de um pescador sem corpo que o obriga a sentar-se durante horas à beira rio de cana na mão. (Ele há espíritos com cada uma, chiça!) A questão é que o corpo do meu pai e o espirito do pescador dão-se às mil maravilhas e dia após dia dedicam-se a atafulhar o congelador lá de casa com carradas de peixe.
A familia, numa tentativa desesperada de agradar à alma penada, vai fazendo oferendas (ora é o baldinho, ora o banquinho, a canazinha, etc) para ver se se dá o exorcismo e se voltamos a comer carne lá em casa. (Creio que andamos a usar a técnica errada. O meu pai até já fala em comprar uma camisa de flanela aos quadrados.)

Isto tudo para dizer que a familia fez mais uma tentativa e um dos seus mais recentes membros vai de se lembrar de lhe dar uma cana toda xpto precisamente no dia em que o meu pai se encontrava hospitalizado. Como a doença não era grave, o espirito (do meu pai, não do pescador) estava, como sempre, imparável e insistiu, qual puto mimado, que havia de ver a dita cana. Eu, numa inversão estranha daquilo que havia de ser a relação pai-filha, tentei argumentar durante uns 10 segundos mas acedi aos seus encantos e lá fui buscar a dita cana ao carro.

Com um ar aparentemente normal, enchi o peito de ar e atravessei aquele átrio como se não fosse uma cana de pesca que levava na mão. Juro que me passou pela ideia tentar escondê-la (tipo espada à lá Imortal) mas rapidamente abandonei a ideia. Força, miuda, enfrenta o peixe pelas barbatanas e vai corajosamente de cana em punho até ao teu objectivo! E lá fui!
Primeiro obstáculo: os vistantes do hospital e suas piadinhas. “Eh eh, aquela vai pescar doentes”, “Com uma cana dessas também eu te pescava”, “Ai, ai que não me importava de ser peixe” e outras que tais…
Segundo obstáculo: o segurança. Olhou para mim como se não estivesse a acreditar depois lá perguntou: “Menina? Uma cana no hospital?”. Após uma explicação concisa lá me deixou ir com a cara tipica do é-tão-doido-o-pai-como-a-filha.(Reconheço-a porque já não é a primeira vez que a vejo; e também me parece que não vai ser a ultima).
Entrei no elevador que felizmente estava vazio mas logo entraram duas pessoas que entre lágrimas de riso lá me desejaram boa sorte e muita linha porque o rio ainda ficava longe.
Após dois sprints para fugir aos enfermeiros da psiquiatria (acho q foi o segurança que os avisou), uns olhares ameaçadores tipo não-me-perguntem-mais-nada e um slalom entre auxiliares, eis que cheguei.
E cenas à parte, valeu a pena fazer figura de ursa para ver aquele brilho nos olhos de malandro do meu pai de tão contente que ele estava. (Ainda que depois tenha que lhe ter tirado a cana das mãos quando o vi tentar lançar a linha ao soro do colega do lado)
É assim a vida: há pessoas pelas quais vale a pena passar por doidinha.

Quarta-feira, Julho 19, 2006

Quando trabalhamos mais do que vivemos

Cruzei-me com uma mulher nas escadas do prédio onde trabalho.
Não a conheço de lado nenhum nem me havia cruzado com ela antes mas sei que é telefonista.
Porquê?
Porque quando lhe dirigi um educado bom-dia, a senhora respondeu-me: Estou sim, bom diaaaa.
Sorri para dentro, lamentei-lhe a confusão e fiz-me à vida pensando que ninguem está livre de trazer sempre o trabalho dentro do bolso.

Terça-feira, Julho 18, 2006

Mudam-se os tempos…

…. não se mudam as vontades

Ontem à noite, já bem à noitinha, naquelas horas em que não se passa já nada e só queremos é paz (pás, pás, pás) e sossego, eis que toca o meu telefone… O da empresa!
Logo se sucederam rodopios de acusações impróprias, congeminações horrendas, cenários catastróficos! Perante as possibilidades, diversas reacções.
Patrão vitima de ataque cardíaco: alternância entre É-bem-feito-meu-isto-meu-aquilo (condenem-me vá…) e Ai-agora-quem-é-que-me-paga-ao-fim-do-mês.
Cliente a adjudicar orçamento: Tás parvo ó quê? Deves pensar que eu sou tua mãe e que só porque quero o teu dinheiro tenho que fazer de ama seca e aturar-te a qualquer hora. Mas pronto, para dares para cá o guito para ti é sempre de manhã…
Colega com ataque de pânico a precisar de ajuda: Esta era piada. Na minha empresa não há funcionários que se precocupem o suficiente para ter ataques de pânico fora do horário de expediente. E mesmo esses, são muito calminhos…

Postas as hipoteses, atendo o telefone.

Nada me tinha preparado para o que estava prestes a acontecer. Do lado de lá da linha estariam duas criaturas imberbes, aos risinhos histéricos e sufocados. A conversa (se isto foi uma conversa) foi a seguinte:

Miudas Pindéricas: Fala do aeroporto?
LC: Não meninas, não fala. E não acham que já é tarde para andarem a brincar? (Este meu ar de adulta mata-me…)
Miudas Pindéricas: Mas fala do aeroporto ou não?
LC: silêncio (Vá, manda lá a piada para ires lavar os pézinhos e te ires deitar)
Miudas Pindéricas: Se não fala, então baixe os cornos que o avião vai passar! Ti.. ti… ti…ti…

É pá, LINDO!
Até se me embaciaram os olhos com lágrimas de tanta nostalgia. Eu, que já tinha perdido a fé nesta geração de morangos desnatados, fui vitima destas enviadas que decidem fazer o bem e repôr-me a crença.
O gozo telefónico, sem qualquer nexo ou piada, it’s alive!

Saber que estes meninos, apesar das playstations, dos 3g’s (grandes, grosseiros e grotestos), dos plasmas, das mesadas maiores que o meu ordenado e das roupas de marca continuam tão idiotas como nós eramos há 20 anos atrás, fez-me sentir confortável: há coisas que o tempo não muda.

PS: este post um bocadinho ao estilo de no-meu-tempo-é-que-era fez-me parecer velha ou é impressão minha? Pelo sim pelo não, hoje ligo a TVI …

Sexta-feira, Junho 23, 2006

O senhor que não sabia onde estava...

... e eu também não lhe disse.

Ontem fui obrigada a atender o telefone geral na empresa onde trabalho. Raramente o faço porque raramente sei do que se trata. Dentro da empresa, o meu trabalho é tão restrito que quase ninguem sabe o que eu faço. Nem eu própria, por vezes.
Assim, entre atender o telefone e estar sempre a assumir a minha incompetência (auto-incumbida, confesso imodestamente) em relação aos assuntos abordados, prefiro fingir que não oiço o zumbido telecomunicador e esperar que se cale ou que outro alguém o atenda.
Mas há excepções e ontem aconteceu.
E ainda bem, senão não estariamos aqui agora perante mais um chorrilho inexplicável de disparates do tevemesmoqueser. (Eina cum caraças, que exagero! Também não é assim tão mau…) Siga…


Contextualizando o dito telefonema, o senhor que ligava era estrangeiro mas residia em Portugal, dominava a lingua portuguesa e pretendia informação sobre a localização da empresa. (Esta vou conseguir!, disse eu cá para comigo toda contente…)

LC: A empresa situa-se em Leiria. (Estive bem, não estive?)
Sr. Estrangeiro a Residir em Portugal: Ah… e isso é perto de Portugal? (COMO DISSE?!?!?)
LC: Sim… É DENTRO! (Apesar da indignação, ainda há espaço para a piaducha...)

Contado o conto acrescente-se o ponto…
O senhor até poderia não saber onde era Leiria. (Custa a crer mas a presunção de inocência está-me no sangue). Mas, estando a residir cá, estar a ligar para um número fixo e ser atentido em lingua portuguesa não seriam já demasiadas evidências para que não surgisse tão inusitada pergunta?
E vai daí que o facto do senhor ser estrangeiro até nem tem nada a ver com isto: a estupidez não conhece fronteiras. Tanto os há cá como aqui…